Introdução
literalmente “aquilo que se tem na mão”, sugerindo nessa acepção algo que está facilmente ao nosso alcance, algo de fácil acesso, algo para pronto uso, na verdade não foi escrito por Epicteto, mas por seu zeloso discípulo Flávio Arriano, que após colher as lições do mestre o compôs. É uma síntese de uma obra muito maior, redigida pelo próprio Arriano em oito Livros, dos quais, a propósito, só chegaram a nós quatro.
Epicteto, tal como Sócrates, nada escreveu. Presume-se que, como o velho mestre de Platão, pensava que todo o seu tempo disponível devia ser empregado em colóquios filosóficos ( [diatribaí]) com os discípulos, não sobrando tempo para a redação e o registro de suas doutrinas. É sempre oportuno lembrar que Sócrates, além de agir dessa maneira, jamais fundou uma escola nos moldes de Isócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro e mesmo dos primeiros estoicos. Seus ensinamentos eram regularmente ministrados na ágora, um vasto espaço público, ou nas residências de seus discípulos e/ou amigos, ou até nos espaços reservados aos sofistas, do que é flagrante exemplo a residência de Cálias, o rico ateniense que dava calorosa acolhida aos sofistas.
O resultado, infelizmente inevitável, é não sabermos ao certo o que pensavam exatamente esses homens, e termos que nos conformar com o testemunho de seus discípulos diretos. O Manual é uma amostra primorosa e impecável de condensação e forma sucinta de exposição filosófica. Seu teor é eminentemente ético dentro da tradição do estoicismo e o seu estilo, aquele de um mestre dirigindo suas orientações a um discípulo. A preocupação fundamental de Epicteto, segundo Arriano, é a conduta humana, o comportamento do ser humano em sociedade, o qual deve alinhar e combinar a prática incessante de virtudes ( [aretaí]) como a tolerância, a benevolência, a discrição,
a resignação, a simplicidade, a justiça, a moderação e a coragem, numa postura inabalável de completa indiferença ( [apátheia]) e desprezo pelas coisas e interesses mundanos, o que possibilita uma comunhão harmoniosa com a natureza e uma aceitação tranquila de tudo o que ocorre e que nos atinge, além de um relacionamento amistoso, ainda que desafiador, com nossos semelhantes; isso conquistado, alcança-se uma forma de felicidade.
Esse paradigma estoico de conduta/prática ( [prâxis]) está necessariamente vinculado ao cultivo da filosofia, distinguindo visceralmente o filósofo do indivíduo vulgar ( [idiótes]). A ação virtuosa não só exclui a viciosa como está (da mesma forma que esta última) no âmbito de nossa liberdade, ou melhor, de nossa vontade, prévia escolha ( [proaíresis]).
É no exercício contínuo da conduta virtuosa que nos aprimoramos, até porque (conforme indica logo de início, categoricamente, o capítulo 1 do Manual) coisas como riquezas, prestígio e obtenção de cargos públicos que constituem poder não estão subordinadas a nós, vale dizer, não estão no domínio de nossa liberdade e prévia escolha.
Fica claro, portanto, que a busca desses bens mundanos não é apenas uma ação viciosa como também uma ação inteiramente inútil, pois sua consecução não depende de nós, de nossas escolhas e propriamente de nossos esforços. Quanto aos diversos acontecimentos da vida – nem sempre favoráveis –, também não estão evidentemente subordinados a nós, mas são da competência da natureza e determinados pela Providência divina.
Assim, só nos resta aceitá-los e, mediante nossa faculdade condutora ( [hegemonikón]), a razão, extrair dos eventos desfavoráveis as melhores lições e o maior proveito. O Manual de Epicteto teve grande repercussão nos círculos intelectuais do Império Romano e exerceu marcante influência no pensamento e na conduta do imperador estoico Marco Aurélio (121-180 d.C.), que governou com determinação e sabedoria de 161 d.C. a 180 d.C.
E até hoje esse opúsculo nos aponta lições singelas e objetivas de como nos conduzirmos rumo ao nosso aprimoramento moral pessoal e, ao mesmo tempo, dispensarmos uma miríade de bens mundanos (a rigor desnecessários) e convivermos pacificamente com nossos semelhantes, mesmo que estes não se conduzam como nós.
Edson Bini
MANUAL DE EPICTETO
1. Entre as coisas que existem, há aquelas subordinadas a nós e as não subordinadas a nós. As subordinadas a nós são o pensamento,1 o impulso,2 o desejo,3 o evitar 4 e, em síntese, todas as operações que executamos;5 as não subordinadas a nós são o corpo,6 os bens,7 a reputação,8 os cargos9 e, em síntese, tudo aquilo que não são operações que executamos.
Some-se a isso que as que estão subordinadas a nós são naturalmente livres, desimpedidas, sem obstáculos, ao passo que as que não estão subordinadas a nós são frágeis, servis,10 sujeitas a impedimentos, estranhas.
Lembra-te, assim, que, se consideras livre aquilo que é naturalmente servil, e próprio de ti aquilo que é estranho a ti, te verás diante de obstáculos, sofrerás aflição, perturbação, e incriminarás os deuses e os seres humanos, ao passo que, se consideras teu apenas aquilo que é teu e o que é estranho como o que é realmente estranho, nada ou ninguém jamais te constrangerá, nada ou ninguém te tolherá, não incriminarás ninguém, não encontrarás alguém para acusar, nada farás que não queiras, ninguém te prejudicará, não terás inimigos; com efeito, nada de prejudicial te atingirá.
Portanto, com tantas coisas importantes em vista, lembra-te que não deves poupar esforços para alcançá-las; entretanto, deves abrir mão inteiramente de algumas, e de momento adiar outras.
Mas se desejas, inclusive, cargos de poder e riqueza, talvez não venhas a atingi-los em razão de desejares as primeiras coisas mencionadas; de modo algum conseguirás obter as coisas que com exclusividade geram a liberdade e a felicidade.11 Portanto, diante de toda ideia12 desagradável apressa-te em dizer: “És uma ideia, e de maneira alguma o que aparentas ser”.
Em seguida submete-a a exame e a teste com base nas regras de que dispões, entre as quais a primeira e principal é aquela segundo a qual se estima se a ideia diz respeito ao que está subordinado a nós ou ao que não está subordinado a nós; se disser respeito ao que não está subordinado a nós, prontifica-te a dizer: “Nada é com relação a mim”.
2. Lembra-te que a promessa do desejo constitui o êxito na obtenção do que se deseja, que a promessa do evitar é não topar com o que é evitado, e que aquele que falha na obtenção do que deseja é um fracassado,13 enquanto aquele que topa com o que evita é um infeliz.14 Se, portanto, evitas tão só o que contraria a natureza naquilo que está subordinado a ti, não irás topar com nada que evitas; contudo, se evitas a doença,15 ou a morte16 ou a pobreza,17 serás infeliz.
Assim, não evites todas as coisas que não estão subordinadas a nós, passando, sim, o evitar para aquilo que contraria a natureza, no que se refere ao que está subordinado a nós. No que respeita ao desejo, por ora elimina-o totalmente, pois se desejares algo não subordinado a nós serás inevitavelmente um desafortunado, enquanto no que concerne ao que está subordinado a nós, sendo nobre o que desejas, nenhuma dessas coisas tampouco estará ao teu alcance.
Teu emprego, quer dos impulsos, quer das rejeições, deve ser realizado somente de maneira relaxada, com moderação e sem coação.
3. No que toca a todas as coisas que promovem alegria ou entretenimento,18 ou as coisas úteis, ou as que são objeto de afeição, lembra de dizer, a título de acréscimo, do que se tratam, principiando pelas mais ínfimas; se gostas de um jarro, diz “Gosto de um jarro”, pois, se acontecer de ele se quebrar, isso não te perturbará; se beijas teu próprio filho ou esposa, diz que beijas um ser humano;19 com efeito, nesse caso, se ele morrer não te perturbarás com isso. 4.
Quando te dispões a realizar alguma ação, recorda-te de qual é a natureza dessa ação. Se estás saindo para tomar um banho, antecipa mentalmente o que acontece numa sala de banhos,20 ou seja, indivíduos que jogam água em ti, indivíduos que esbarram em ti, indivíduos que te insultam, indivíduos que te roubam. E assim tu irás executar tua ação com maior segurança se disseres de imediato: “Quero tomar banho e também conservar minha vontade em harmonia com a natureza”. Igualmente no que toca a todas as ações.
Com efeito, por via de consequência se durante o banho acontecer de te veres diante de algum obstáculo, estarás pronto para dizer: “Todavia eu não queria somente isso, mas também conservar minha vontade em harmonia com a natureza; mas não a conservaria se me aborrecesse com os acontecimentos”.
5. Não são as coisas que perturbam as pessoas, mas os pareceres a respeito das coisas;21 por exemplo, a morte nada tem de amedrontadora (pois assim também não pareceu a Sócrates),22 mas o parecer sobre a morte é que é amedrontador. A conclusão é que quando experimentamos aborrecimento ou perturbação ou aflição, não é o caso de responsabilizar os outros por isso, mas a nós mesmos, ou seja, aos nossos próprios pareceres.
É ação de um ignorante acusar os outros dos próprios males; atribuir a culpa a si mesmo é atitude de alguém que dá início a sua educação; aquele que nem acusa aos outros nem a si mesmo já é alguém educado.
6. Não te orgulhes de uma qualidade superior que não é tua. Seria admissível se o cavalo se orgulhasse dizendo “Eu sou belo”;23 quando tu, porém, se orgulha dizendo: “Possuo um belo cavalo”24, podes crer que estás
te orgulhando de um bem do cavalo25. Então o que é de ti? O emprego das ideias. Resulta que, quando empregas ideias em consonância com a natureza, podes nesse caso orgulhar-te, pois então te orgulhas de algum bem que é teu. 7.
Tal como numa viagem marítima, se o navio atraca no porto vais servirte de água doce, e pode ser que a caminho disso suplementes com um caracolzinho26 ou uma cebolinha,27 é preciso manter o pensamento no navio e continuamente atento a ele, por receio de acontecer de não seres chamado pelo comandante, e, se fores chamado, largar tudo a fim de não ser amarrado e jogado a bordo como os carneiros; o mesmo ocorre na vida: se a ti forem dados em lugar de uma cebolinha ou um caracolzinho uma pequena esposa28 ou uma criança, nada fará oposição a isso; mas se o comandante te chama, corre para o navio, abandona tudo sem sequer olhar a tua volta.
Se és velho, nem mesmo te ponhas a uma grande distância do navio para não deixar de ouvir a chamada.
8. Não busques que os acontecimentos sejam como queres, mas queira que os acontecimentos sejam como são, com o que serás feliz.
9. A doença é um obstáculo para o corpo, não porém para a vontade,29 a não ser que esta a queira. A claudicação é um obstáculo para as pernas, não porém para a vontade. E diz isso diante de cada um dos acontecimentos que atingem30 a ti; com efeito, descobrirás algo que serve de barreira a alguma outra coisa, mas não a ti. 10. Diante de cada um dos acontecimentos que atingem31 a ti, lembra de te voltares para ti mesmo em busca daquele poder que tens para tirar proveito de tal acontecimento. Se vês um belo jovem32 ou uma bela mulher33, encontrarás o poder para enfrentá-los no autocontrole34; se diante de um trabalho árduo, encontra-lo-ás na paciência35; diante do insulto, encontra-lo-ás na resignação36. E se te acostumares assim, as ideias não te dominarão.
11. Jamais digas acerca de qualquer coisa “eu a perdi”, mas “eu a restituí”. O teu filho morreu? Foi restituído. Tua mulher morreu? Foi restituída. “Fui despojado de minha propriedade rural.” Muito bem! Isso também foi restituído. “Mas foi um patife que a despojou de mim.” Mas que importância tem para ti aquele por meio do qual o doador quis a sua restituição? Enquanto a ti foi dada, cuida dela como algo que te é estranho, tal como agem os viajantes em relação à estalagem.
12. Se queres progredir, abandona reflexões do tipo “Se negligencio nos meus negócios, não terei como me sustentar”; “se não castigo meu pequeno escravo, ele será uma pessoa má”. Com efeito, é melhor morrer de fome
livre do sofrimento e do medo, do que viver na abundância com a alma perturbada; melhor ser o teu pequeno escravo uma pessoa má, do que seres tu uma pessoa infeliz. Assim, principia pelas pequenas coisas. O pouco azeite de que dispunhas derramou, teu escasso vinho foi furtado: diz a ti que “é esse o preço de venda da impassibilidade, o preço de venda da tranquilidade da alma”. Nada é oferecido que não resulte num preço.
Toda vez que chamares teu pequeno escravo, reflete que é possível que não tenha te escutado e que, se escutou, não venha a fazer o que queres; mas a posição dele não é tão boa a ponto de determinar que dele dependa o causar-te perturbação. 13. Se queres progredir, resigna-te a parecer externamente um insensato e um estúpido, e nem queiras ostentar que possuis qualquer conhecimento; e se gozares de alguma boa reputação, desconfia de ti mesmo.
Com efeito, saiba que não é fácil conservares tua vontade em conformidade com a natureza e manter externamente as aparências: pelo contrário, é inteiramente inevitável que aquele que se ocupa de uma dessas coisas venha a negligenciar a outra.
14. Se queres que teus filhos, tua esposa e teus amigos vivam para sempre, és um tolo, pois estás querendo que aquilo que não está subordinado a ti esteja subordinado a ti e que aquilo que não pertence a ti pertença a ti; assim, se queres que teu pequeno escravo não cometa erros, és um insensato, pois neste caso estás querendo que o vício não seja vício, mas uma outra coisa. Se, todavia, o que queres é não deixar de alcançar o que desejas, disso és capaz. Portanto, ocupa-te daquilo de que és capaz.
Cada senhor de alguém é aquele que possui o poder sobre o que esse alguém quer ou não quer no sentido de conservá-lo ou suprimi-lo. Consequentemente, aquele que quer ser livre nem deseje nem se esquive das coisas que estão subordinadas a outros, caso contrário será forçosamente um escravo.
15. Lembra que te deves comportar como se estivesses num banquete37.
Se o prato que circula chegou a ti, estende a mão e toma uma porção de modo decente e polido. Passou ao teu lado? Não o detém. Se não chegou a ti ainda, não projetes de longe o teu desejo por ele, mas aguarda até que chegue a ti. Comporta-te assim em relação aos filhos, em relação à esposa,
em relação aos cargos públicos, em relação à riqueza, e algum dia serás digno de ser um conviva dos deuses38. Se, porém, não tomas nenhuma dessas coisas que servem a ti, mas sim as desprezas, não te limitarás a ser um conviva dos deuses, como também partilharás do poder deles. Com efeito, foi assim agindo que Diógenes39, Heráclito40 e seus semelhantes mereceram ser chamados do que eram, isto é, divinos.
16. Quando veres alguém chorando de aflição devido à ausência de um filho em viagem ao estrangeiro, ou devido à perda dos seus bens, não te deixes tomar pela ideia de que os males que o atingem têm origem externa, mas pensa imediatamente o seguinte: “O que o oprime não são esses acontecimentos (pois não oprimem outra pessoa), mas a opinião que sustenta sobre eles”. Entretanto, tanto quanto possam tuas palavras, não hesites em mostrar-te solidário com ele e, caso surja uma oportunidade, deves, inclusive, acompanhá-lo em seus gemidos41; entretanto, cuida para não interiorizar também os teus gemidos.
17. Lembra que és um ator num drama no qual o personagem que desempenhas é o preferido pelo dramaturgo: se um personagem medíocre, será um personagem medíocre; se um grande personagem, será um grande personagem; se quiser que teu papel seja o de um mendigo, ainda assim trata de interpretá-lo com talento; o mesmo se o personagem for um aleijado, um funcionário do Estado, um indivíduo particular comum. Com efeito, está em tuas mãos desempenhar bem o personagem, mas cabe a outra pessoa escolher o teu papel. 18.
Quando um corvo emite um crocito de mau agouro42, não te deixes levar pela primeira ideia que te vem à mente, mas imediatamente faz uma distinção no teu íntimo e diz que “Nada disso constitui um signo para mim, ou para o meu precário corpo, ou para as minhas escassas posses, ou para a minha irrisória opinião, ou para meus filhos ou para minha esposa. Mas, no que me diz respeito, todo signo é de bom agouro se assim eu o quiser, pois não importa o que suceda, está ao meu alcance tirar proveito disso”.
19.
Podes ser invencível, se não desceres a nenhuma arena na qual sair vitorioso não depende de ti.43 Cuida para que ao observares alguém pelo qual és preterido quanto a receber honras, ou investido de grande poder, ou que de alguma outra forma goza de excelente reputação, não te deixes jamais levar pela ideia de julgá-lo feliz, pois se a essência do bem44 estiver entre as coisas subordinadas a nós, não há espaço nem para a inveja nem para a rivalidade: e tu próprio não desejarás ser um general, ou um prítane45 ou um cônsul, mas livre.
O único caminho para isso é o desprezo46 pelas coisas que não estão subordinadas a nós. 20. Lembra que não é aquele que te insulta ou aquele que te agride os agentes da violência, mas sim a tua opinião de que eles são violentos contigo. Por conseguinte, quando alguém te provoca, saiba que foi tua própria opinião a responsável pela provocação.
Assim, empenha-te em primeiro lugar em não ser levado pela ideia e a impressão que tiveste; com efeito, uma vez que ganhes tempo e um prazo [para refletires], será com maior facilidade que te tornarás o senhor de ti mesmo.
21. Mantém, dia a dia, sob teus olhos a morte47, o exílio48 e todas as coisas que se mostram terríveis49, sobretudo, entre todas, a morte: o resultado será jamais pensares algo de vil nem desejares algo em excesso.
22. Se desejas a filosofia, prepara-te de antemão para seres encarado pela multidão como objeto de ridicularização, como objeto de gracejos50, a dizer “Ele repentinamente se tornou para nós filósofo” e “De onde nos veio essa sua postura orgulhosa?”. No entanto, não assumas uma postura orgulhosa, mas prende-te ao que te parece o melhor, como se fosse um deus que te destinou a essa posição. Lembra que, se te conservares firme em tua posição, aqueles que antes te ridicularizaram passarão depois a te admirarem; se, porém, te deixares vencer pelo abatimento, serás duplamente alvo do riso.
23. Se por acaso vier a acontecer contigo de te voltares para o exterior no desejo de agradar a alguém, saiba que com isso afastaste de ti a estratégia para a direção da vida51. Portanto, com respeito a tudo, contenta-te em ser filósofo; e se for tua vontade, inclusive, parecer um, mostra a ti mesmo que és e isso será suficiente.
24. Não te angusties com raciocínios como “Viverei destituído de honras e nada serei em lugar algum”. Com efeito, se a falta de honras é um mal, não podes estar no mal por conta de outra pessoa, tanto quanto não o podes estar na vergonha. Cabe a ti obter um cargo público ou ser convidado para um banquete? De modo algum. Então, no que isso diz respeito à falta de honra?
E como conceber que nada serás em lugar algum52 quando só deves ser alguém naquilo que está subordinado a ti, no que estás facultado a ser alguém da mais elevada dignidade? Mas teus amigos ficarão sem ajuda? O que queres dizer com sem ajuda53? Não terão de ti umas míseras moedas; tampouco farás deles cidadãos romanos. Ora, afinal, quem te disse que estas são coisas que estão subordinadas a ti e que não são obra de outros? Quem é capaz de dar a outra pessoa aquilo que ele próprio não tem?
“Então adquire”, ele diz,54 “para que nós tenhamos.” Se eu puder adquirir mantendo-me respeitável, honesto e detentor de sentimentos elevados, mostra-me o caminho e eu adquirirei. Mas se achais que vale a pena eu perder as coisas boas que me são próprias para obterdes coisas que não são boas, como sois injustos e imprudentes! E o que preferis? Dinheiro ou um amigo honesto e respeitável?55 Sendo assim, é melhor que me ajudeis56 em lugar de julgardes que vale a pena que eu aja de modo a perder aquelas coisas boas.
“Mas minha pátria, no que diz respeito a mim,” ele diz,57 “estará sem ajuda.” Pergunto mais uma vez: qual é essa ajuda? Não será ter ela à disposição galerias com colunas nem salas de banho. E, afinal, o que é isso?
Nem são os calçados fornecidos pelo caldeireiro58 nem as armas fornecidas por aquele que confecciona calçados. Basta que cada um execute seu próprio trabalho. Entretanto, se suprisses a ela um outro cidadão honesto e respeitável, não estarias lhe oferecendo algo útil? “Sim.” Ora, então neste caso também não serias inútil para ela. “Mas assim…”, ele diz, “…que lugar ocuparei no Estado?” Aquele que podes59 ocupar ao mesmo tempo mantendo a ti honesto e respeitável. Se, porém, na tua vontade de ser útil a
ela perderes essas qualidades, que utilidade terás para ela se te tornaste indigno de respeito e desonesto? 25. Alguém recebeu maior honra do que tu num banquete, ou dirigiram a palavra a alguém preterindo a ti, ou convocaram alguém para dar conselho em lugar de ti? Na hipótese de essas coisas serem boas, deves te alegrar pelo fato de outra pessoa as haver obtido; se são más, não sofras por não as ter obtido. Lembra que, se não fazes o mesmo que os outros visando a obter coisas que não estão subordinadas a nós, não podes ser considerado merecedor de compartilhar igualmente com os outros. Com efeito, como seria possível para uma pessoa que não frequenta assiduamente a casa de
alguém receber o mesmo que a pessoa que o faz? Aquele que não fornece uma escolta comparado com aquele que a fornece? Aquele que não faz louvores comparado àquele que os faz? Conclui-se que serás injusto e insaciável se, deixando de pagar o preço pelos quais essas coisas são vendidas, queiras recebê-las como um presente60. Mas quanto custa a alface? Um óbulo,61 talvez. Assim, alguém que pagou com seu óbulo obteve a alface, enquanto tu que não pagaste não a obtiveste. Com isso, não penses que tens menos do que aquele que a obteve, pois tal como ele tem suas folhas de alface, tu tens o óbulo que não entregaste.
Nesta vida é também isso o que ocorre. Alguém não te convidou para um banquete? É compreensível já que não deste ao anfitrião o que ele cobra pelo jantar62. Ele o vende para ser pago em louvor; ele o vende para ser pago em atenções dirigidas a ele. Portanto, paga-lhe segundo o seu preço de venda, se o que ele vende é para o teu proveito. Mas se não queres pagar e ao mesmo tempo queres receber, és insaciável e também estúpido. Então nada tens para substituir o jantar?
Tens, a saber, não precisaste louvar alguém que não querias louvar, não precisaste suportar a insolência dos porteiros à entrada de sua casa. 26. Podemos nos instruir sobre qual é a vontade da natureza63 com base numa consideração daquilo em que não nos diferenciamos mutuamente. Por exemplo, quando o pequeno escravo de uma outra pessoa quebra uma taça, estás pronto a dizer instantaneamente “Esse tipo de coisa acontece”. Fica
ciente, portanto, que, quando for a tua taça a quebrada, deves tomar a mesma atitude que tomaste quando foi a taça alheia a quebrada. Transfere também essa mesma regra para as ocorrências mais importantes. O filho ou a esposa de outrem morreu: não haverá quem deixe de dizer que “Isso faz parte da condição humana”64; quando, porém, é o nosso próprio filho ou a nossa própria esposa que morre, o lamento imediato é “Ai de mim! Quão desgraçado eu sou!”. Devemos, todavia, nos lembrar qual é o sentimento que experimentamos ao ouvir que o mesmo atingiu a outros.
27. Tal como um alvo não é instalado para não ser atingido, tampouco a natureza do mal é gerada no universo.65 28. Se alguém entregasse teu corpo ao primeiro que aparecesse, te sentirias irritado com isso; mas se tu entregasses tua própria inteligência66 à primeira pessoa com quem topasses para que ela, te ultrajando, o fizesse mergulhar na perturbação e confusão, não te envergonharias com isso?
29. Em cada ação considera os antecedentes e os consequentes dela67 para só então realizá-la. Se assim não agires, darás início a ela com entusiasmo, uma vez que nunca pensaste em nenhuma de suas consequências; contudo, mais tarde, ao surgirem algumas dificuldades, tu desistirás desonrosamente. Queres conquistar uma vitória nos Jogos Olímpicos? Pelos deuses, eu também! Com efeito, isso é admirável.
Entretanto, considera os antecedentes e os consequentes para só então empreenderes essa ação.
Será necessário observares uma disciplina, te submeteres a uma dieta alimentar, te absteres de doces e guloseimas, suportar a imposição de exercícios em horários regulares no calor e no frio, não beber água fria nem vinho quando tiver vontade, em síntese, terás que te entregar ao teu treinador como te entregarias aos cuidados de um médico; em seguida, na competição terás que cavar a terra68, às vezes deslocar o pulso69, torcer o tornozelo, engolir muita poeira,70 ocasionalmente até ser chicoteado, e depois de todas essas coisas ser vencido.
Tudo isso levado em consideração,71 se ainda assim o quiseres, empenha-te duramente para ser um atleta.
Se não for desse modo, estarás agindo como as crianças que ora brincam de lutadores, ora de gladiadores, ora brincam de soar trombetas, e em seguida atuam como trágicos; ocorrerá algo idêntico contigo, que ora será um atleta, ora um gladiador, a seguir um orador e depois um filósofo, porém, na plenitude de tua alma, nada;72 mas imitarás, como um macaco, todo espetáculo que contemplares, e uma coisa após a outra te trará satisfação.
Com efeito, não empreendeste nada, depois de um cuidadoso exame e de considerá-lo sob todos os seus ângulos; pelo contrário, ages aleatoriamente e sem ardor73. Assim, quando certas pessoas observaram um filósofo e o escutaram falar como Eufrates fala74 (entretanto, quem é capaz de falar como ele?), quiseram também elas ser filósofas. Homem, começa por considerar o que é que pretendes fazer, para depois, instruindo-te sobre sua própria natureza, descobrires se és capaz de levá-lo a cabo.
Queres competir no pentatlo75 ou [especificamente] na luta? Observa teus braços, tuas coxas, vê qual é a condição de teus rins. Com efeito, um tem propensão natural para uma coisa, ao passo que outro a tem para outra. Achas que agirás do mesmo modo, que poderás comer do mesmo modo, beber do mesmo modo, experimentar as mesmas aspirações, os mesmos aborrecimentos? Deverás ficar sem dormir, trabalhar arduamente, distanciar-te de familiares e
parentes, ser objeto de desprezo de um pequeno escravo, objeto de riso daqueles com quem topares76, em tudo ter o pior, nas honras, nos cargos públicos, nos processos judiciais, em todos os assuntos prosaicos.
Examina todas essas coisas se queres receber em troca delas impassibilidade, liberdade, tranquilidade de alma77; se assim não for, não te aproximes da filosofia para teres a conduta das crianças, sendo, no presente filósofo, posteriormente recebedor de impostos, em seguida orador, logo após procurador de César78. Essas coisas não combinam.
Deves ser uma única pessoa, ou boa ou má;79 deves trabalhar ou a faculdade condutora de ti mesmo ou as coisas externas;80 ocupar-te, com engenho e gosto, ou das coisas interiores81 ou das coisas exteriores82, isto é, desempenhar ou a função de um filósofo ou a do indivíduo vulgar83.
30. As obrigações84 são em geral medidas com base nas relações entre as pessoas. Ele é um pai: está determinado que deves cuidar dele, fazer-lhe todas as concessões, suportar de modo perseverante seus insultos e golpes.
“Mas é um mau pai.” A natureza, assim, te pôs em relação com um bom pai? Não, apenas com um pai. “Meu irmão é injusto comigo.” Conserva, entretanto, a relação que entreténs com ele; tampouco considera suas ações, mas sim quais deverão ser as tuas, de modo que tua vontade se harmonize com a natureza. Com efeito, ninguém te prejudicará desde que não o queiras; só te prejudicarão se alimentares o pensamento de que és
prejudicado. O resultado é que, se te acostumares a levar em consideração as relações com o teu vizinho, com o teu concidadão, com o teu general, descobrirás qual é tua obrigação.
31. No que toca à devoção religiosa85, relativamente aos deuses, saiba que o principal é ter acerca deles concepções corretas86, como crer em sua
existência, que realizam a regência de todas as coisas bem e com justiça, desse modo te dispondo a obedecê-los e te submeter a todos os acontecimentos, e os acatando de boa vontade na crença de que tudo está sendo realizado pela melhor das inteligências. Com efeito, graças a essa atitude, nunca acusarás os deuses nem os reprovarás por serem negligentes contigo.
Contudo, isso não poderá vir a acontecer se não deslocares coisas que não estão subordinadas a nós e instalá-las unicamente naquelas que estão subordinadas a nós, o bem e o mal. Isto porque, se conceberes alguma dessas primeiras coisas como boas ou más, será totalmente inevitável87 que, quando não conseguires obter o que queres e topares com o que não queres, culparás e odiarás os responsáveis.
De fato, fugir e desviar-se das coisas que parecem danosas e de suas causas, e buscar e tomar-se de admiração por aquelas que se revelam benéficas e por suas causas, constituem ações naturais de todo ser vivo. A conclusão é que é impossível para alguém que se considera vítima de um dano extrair prazer daquilo que julga estar produzindo dano a ele, como também é impossível que extraia prazer do próprio dano.
Disso resulta que um pai é aviltado por um filho88 quando não leva a criança89 a compartilhar daquilo que lhe parece ser uma coisa boa; foi isso que fez de Polineices e Etéocles, mútuos inimigos, a saber, pensarem que a realeza90 é uma coisa boa. Eis a razão porque o agricultor insulta os deuses, porque o marinheiro o faz, porque o mercador o faz, porque aqueles que perderam suas esposas e seus filhos o fazem.
Efetivamente, onde está o interesse, aí também está a devoção religiosa. Por conseguinte, todo aquele que é cuidadoso no sentido de administrar como deve aquilo que deseja e aquilo que evita, é cuidadoso do mesmo modo também no que se refere à devoção religiosa. No tocante às libações, sacrifícios e oferendas das primícias, é adequado agir de acordo com os costumes de cada país, fazendo-o com pureza, de uma maneira que exclua a negligência91 e a indiferença, e não fazê-lo mesquinhamente, nem além de nossos recursos.
32. Quando recorreres à divinação92, lembra-te que não estás ciente do resultado que obterás, mas que vieste consultar aquele que profere a divinação para saber qual será, isto embora saibas quando aí compareceres, se fores verdadeiramente um filósofo, do que se trata. Com efeito, se for uma daquelas coisas não subordinadas a nós, impõe-se como plena necessidade que não seja nem um bem nem um mal. Assim, não tragas àquele que profere a divinação nem desejos nem aversões; tampouco te aproximes dele sacudido por tremores, mas tendo já discernido que todo resultado é indiferente e nada para ti, e que, não importa qual seja, será possível que venhas a servir-te bem dele, algo que ninguém poderá impedir.
Recorre, portanto, confiantemente aos deuses na sua qualidade de conselheiros; e, de resto, após seres aconselhado, lembra-te quem foram os conselheiros e a quem estarás desobedecendo se deixares de escutar o conselho. Recorre ao oráculo da forma que Sócrates achava que se devia fazê-lo, ou seja, nas ocasiões em que toda a busca93 diz respeito ao resultado e quando nem a partir da razão nem a partir de alguma outra arte são concedidos meios para descobrir o que se quer saber;
consequentemente, quando constitui teu dever expor-se ao perigo ao lado de um amigo ou pela pátria, não consultes o oráculo para saber se deves correr esse risco, pois se aquele que profere o oráculo anunciar a ti que os presságios são desfavoráveis, é evidente que são indícios da morte, ou da mutilação de algum membro do corpo ou do exílio; entretanto, quer a razão que fiques ao lado de teu amigo e que te exponhas ao perigo pela pátria94.
Portanto, dirija-te e fica atento ao maior daqueles que profere oráculos95, no templo de Apolo, que expulsou do templo quem não socorrera o amigo quando este fora assassinado.
33. Estabelece para ti desde já uma certa categoria e tipo de caráter que manterás quer estejas isolado, quer na relação com as pessoas com as quais topares. E fica calado a maior parte do tempo, falando apenas o necessário e mediante poucas palavras.
Mas raramente, quando a ocasião exigir que fales, dispõe-te a falar, porém, não a respeito de coisas ordinárias e casuais; não abras a boca para discursar sobre combates de gladiadores, corridas de cavalos, atletas, comidas ou bebidas, assuntos que vêm à baila em todo lugar; sobretudo, não fales das pessoas, não importa se censurando, elogiando ou as comparando. Se estiver ao teu alcance, articule teu discurso no sentido de encaminhar aqueles com quem convives para temas apropriados.
Se, todavia, acontecer de ficares isolado em meio a pessoas estranhas, cala-te.98 Não te disponhas a rir muito, nem de muitas coisas, nem de maneira descontrolada e ruidosa. Recusa-te a fazer juramentos se assim puderes agir, mas se não puderes, age dessa maneira dentro do possível.
Afasta-te dos banquetes dos estrangeiros e das pessoas vulgares;99 entretanto, se surgir uma ocasião na qual as circunstâncias exijam tua presença, fica atento no sentido de jamais incorrer na vulgaridade100, pois saiba que se o companheiro de alguém se suja, será inevitável que aquele que se relaciona frequentemente101 com ele compartilhe de sua sujeira, mesmo que eventualmente ele próprio seja limpo.
No que diz respeito às coisas que se referem ao corpo, toma para o teu uso unicamente o estritamente necessário, por exemplo em matéria de alimento, bebida, vestimenta, moradia, serviçais; elimina tudo o que constitui ostentação ou luxo combinado com indolência e sensualidade.
Quanto aos prazeres do sexo102, dentro de tua capacidade103 conservate puro antes do casamento; todavia, se vieres a ter relações sexuais, toma tua parte de acordo com o que é lícito. Contudo, não ofendas nem censures os que praticam essas relações sexuais; e tampouco manifesta com frequência e em todo lugar que tu próprio não as praticas.
Se chegar aos teus ouvidos que certo indivíduo104 fala mal de ti, não te disponhas a defender-te do que foi dito, mas sim responde: “Sim, isso porque ele ignora os meus outros defeitos, pois se os conhecesse não estaria se referindo apenas a esses”.
Não é necessário frequentar muito o teatro. Se, entretanto, surgir eventualmente uma boa oportunidade de fazê-lo, demonstra que tua preocupação é somente contigo mesmo, a saber, queira apenas que ocorram os acontecimentos que devem ocorrer e que tão só se sagre vitorioso quem deve sair vitorioso, pois desse modo nenhum obstáculo virá te incomodar.
Não grites de modo algum, não te ponhas a rir deste ou daquele e nem te deixes tomar por muita emoção. Findo o espetáculo e após teres saído do teatro, não fales muito acerca do que aconteceu, salvo na medida em que isso concorra para o teu aprimoramento; com efeito, essa atitude revelará que o espetáculo105 ganhou a tua admiração.
Não compareças de modo casual, leviano ou fácil às palestras públicas, mas quando o fizeres mantém a dignidade e o equilíbrio e, ao mesmo tempo, não sejas inconveniente. Quando estiveres para conhecer alguém, especialmente alguém de destaque, indaga a ti mesmo o que teriam feito Sócrates ou Zenão106 em semelhantes circunstâncias, de modo que não venhas a ter dificuldades para se conduzir adequadamente nessas circunstâncias.
Quando te dirigires a alguém detentor de grande poder, põe diante de ti o pensamento de que não o encontrarás em casa, que suas portas estarão fechadas para ti, que baterão as portas no teu rosto,107 que não se ocupará de ti. Mas se, apesar disso, ir a ele constitui teu dever, vai e suporta o que venha a acontecer, e nunca digas no teu íntimo: “Não valeu a pena”, pois isso é próprio de gente vulgar e que se aborrece com coisas externas.
Nos diálogos das reuniões sociais, esquiva-te de evocar muito ou em excesso teus próprios feitos ou perigos. Com efeito, embora seja para ti agradável recordar os perigos que experimentaste, não é agradável aos outros ouvir as tuas vicissitudes108. Evita também desatar a rir, pois esta atitude descamba facilmente para a vulgaridade e, ao mesmo tempo, é suficiente para reduzir o respeito109 que os vizinhos dirigem a ti.
Ademais, é perigoso se deixar levar pela linguagem obscena.110 Assim, quando algo desse tipo ocorrer, caso se apresente uma boa oportunidade, reprova a pessoa que se deixou levar por essa linguagem; se, todavia, não houver tal oportunidade, a fim de deixar claro que essa linguagem não te agradou, recorre ao silêncio, somado ao rubor e a um ar tristonho.
34. Quando apreenderes pela inteligência uma ideia de algum prazer,111 guarda-te, como no caso de outras ideias, para não seres levado por ela; aguarda algum tempo em relação à coisa, permitindo-te alguma demora. Na sequência, pensa em ambos os períodos de tempo, o momento em que gozarás o prazer e o momento posterior, uma vez findo o gozo, no qual, mudando de opinião, te arrependerás e te condenarás; e opõe a esses dois momentos o quanto experimentarás de alegria e autoaprovação se abrires mão disso. Entretanto, caso surja uma ocasião propícia para partires para a ação, acautela-te para não seres vencido por sua doçura, por ser agradável e por sua sedução; opõe a isso o pensamento de quão preferível é estar consciente de que conquistaste uma vitória nessa situação.
35. Quando ages após haveres decidido que deves agir, nunca te esquives na tentativa de ocultar dos olhos alheios a tua ação, ainda que a maioria das
pessoas venha provavelmente a considerar desfavoravelmente a tua ação. Mas se efetivamente o que fazes não é correto esquiva-te da própria ação; se, porém, é correto, por que temer aqueles que não estão corretos na sua reprovação?112 36. Tal como as afirmações “É dia” e “É noite”113 têm grande valor separadamente, mas são destituídas de valor se forem unidas, de idêntico modo tomar a maior porção num jantar tem valor para o corpo, porém não tem nenhum do prisma da vida em comunidade. Assim, quando estiveres com outra pessoa num banquete, lembra de não te limitares a considerar o valor do que é servido unicamente do ponto de vista do teu corpo, mas também naquele de preservar o respeito por quem oferece o banquete.
37. Se assumes um papel além de tua capacidade, tanto te desonrarás nisso114 quanto deixarás de lado o papel que poderias desempenhar.
38. Tal como ao caminhar ficas atento para não pisar num prego ou torcer teu pé, não deixes de ficar atento também no sentido de não ferir tua faculdade condutora. Se em cada uma de nossas ações conservarmos essa atenção, disporemos de mais segurança ao executá-la.
39. O corpo de cada um constitui a medida para o que ele deve possuir, tal como o pé em relação ao calçado. Portanto, se adotares esse padrão, manterás a medida; se, porém, fores além dele, será inevitável que acabes por seres arrastado para um precipício115. Também no que toca ao calçado, uma vez que vais além da medida do pé, começarás por adquirir um calçado ornado de ouro, depois de púrpura, depois bordado. Com efeito, uma vez se tenha excedido a medida, não há mais limite.
40. Logo que completam catorze anos, as mulheres são chamadas pelos homens de senhoras.116 Eis porque, constatando que nada lhes resta senão compartilhar dos leitos dos homens117, principiam a se embelezar, depositando todas as suas esperanças nisso. Valeria, portanto, a pena leválas a compreender que a única coisa que pode lhes trazer honra é manifestarem decência e recato.118 41. Constitui um sinal de incapacidade natural ocupar-se insistentemente daquilo que diz respeito ao corpo, como fazer exercícios físicos em demasia, comer muito, beber muito, evacuar muito, copular119 muito.
Deve-se, pelo contrário, realizar essas coisas como coisas secundárias, dirigindo-se toda a atenção para as coisas da inteligência.
42. Toda vez que alguém te atingir com uma má ação ou pela maledicência, lembra-te que ele assim age ou fala por supor que é seu dever.120 Sendo assim, é para ele impossível concordar com o que a ti parece bom, ficando, em lugar disso, com o que lhe parece, de modo que se o que a ele parece bom constitui engano ou algo mau, o prejudicado será quem foi enganado.
Com efeito, inclusive se alguém julga falsa uma proposição composta que é verdadeira, isto não prejudica a proposição composta, mas sim aquele que se enganou121. Assim, se partires desse ponto de vista, agirás com brandura com quem te insulta. Efetivamente, seria o caso de declarares em todas as ocasiões que “Esse era o seu parecer”. 43. Toda coisa tem duas asas,122 sendo que por meio de uma delas se pode carregá-la, enquanto que pela outra não se pode carregá-la.
Se teu irmão é injusto, não tomes isso pela asa de sua ação injusta (pois esta é a asa pela qual não se pode carregar a coisa), mas, em lugar disso, pela outra, que é o teu irmão, com quem foste criado junto, e assim estarás empregando a asa que permite que se carregue a coisa.123
44. Estes raciocínios são incoerentes:124 “Sou mais rico do que tu, portanto sou superior a ti”, “Sou mais eloquente do que tu, portanto sou superior a ti”. Estes, todavia, são mais conclusivos: “Sou mais rico do que tu, portanto minhas posses são superiores às tuas”, “Sou mais eloquente do que tu, portanto meu discurso é superior ao teu”. Mas tu não és nem posses nem discurso.125 45. Alguém toma banho depressa: não digas que o faz mal, mas que o faz depressa. Alguém bebe muito vinho: não digas que bebe mal, mas que o faz muito. Com efeito, até discernires o que ele pensa a respeito, como sabes que o que ele faz é mau? A conclusão disso é que não captas ideias evidentes de certas coisas, mas dás assentimento a outras.
46. Nunca digas que és filósofo nem fales frequentemente sobre princípios filosóficos126 com pessoas vulgares, mas aja de acordo com tais princípios. Por exemplo, num banquete não digas de que forma se deve comer, mas come da forma que se deve. Lembra-te, a propósito, que Sócrates se despojou a tal ponto e tão radicalmente da postura exibicionista, que as pessoas o procuravam quando queriam que ele as apresentasse a filósofos, e ele as conduzia a eles.
Ele era capaz de não chamar a atenção para si.127 Se acontecer de numa conversação entre pessoas ordinárias algum princípio filosófico passar a ser o tema da conversação, conserva-te calado o maior tempo possível, pois correrás um grande risco de vomitares imediatamente aquilo que não digeriste. E quando um indivíduo diz que não sabes nada e não te feres com isso, saiba que, neste momento, deste início à ocupação [filosófica].
As ovelhas não trazem aos pastores sua forragem para exibir quanto comeram; antes, a digerem interiormente, e externamente produzem lã e leite.128 Tu também não exibas princípios filosóficos na presença de pessoas vulgares; em lugar disso, mostra-lhes os produtos daquilo que digeriste.
47. Quando, no que toca às necessidades do corpo, te ajustas com simplicidade, não te gabes disso; tampouco, se bebes [somente] água, não faças disso um pretexto para ficar repetindo que bebes [somente] água. Se queres impor a ti duros exercícios físicos no feitio de um atleta, empreende tal coisa para ti e não para que quem está de fora o observe. Não abraces estátuas;129 pelo contrário, toda vez que estiveres extremamente sedento, leva um pouco de água fria à boca para depois cuspi-la, isto sem comunicálo a ninguém. 48. Postura e caráter da pessoa vulgar: jamais espera um benefício ou um dano de si mesmo, mas sim de fonte externa. Postura e caráter do filósofo: ele espera todo benefício e dano de si mesmo.
Sinais do indivíduo que progride: não censura ninguém, não elogia ninguém, não culpa ninguém, não acusa ninguém, nada diz de si mesmo como alguém que é alguma coisa ou sabe alguma coisa. Quando é barrado ou tolhido, dirige a acusação a si mesmo. Quando é elogiado, ele ri consigo mesmo da pessoa que o elogia; diante de uma censura, não se defende. Ele circula como os enfermos130, tomando precaução para não abalar aquilo de
que está se recuperando até que adquira firmeza. Eliminou de si todo desejo; transferiu aquilo que se trata de evitar exclusivamente para aquelas coisas contrárias à natureza que estão subordinadas a nós. Em tudo se serve de um impulso destituído de tensão. Se é tido como tolo ou ignorante, não dá importância a isso. Em síntese, ele vigia a si mesmo como um inimigo insidioso.131 49. Quando alguém se gaba de entender e ser capaz de explicar os livros de Crísipo132, diz dirigindo-te a ti mesmo que “se Crísipo não tivesse escrito de maneira obscura, essa pessoa nada teria para se gabar”. Mas o que quero? Instruir-me sobre a natureza e a seguir.
Consequentemente, busco alguém que a explique; e como soube que Crísipo o faz, recorro a ele. Todavia, não entendo os seus escritos, de modo que procuro alguém que os entenda. Até esse estágio, nada há para se gabar. Mas quando descubro aquele capaz de explicá-los, interpretá-los, tudo o que resta é empregar seus preceitos. Somente isso é de se gabar. Se, entretanto, o objeto de minha admiração é a explicação ou interpretação, o que fiz salvo deixar de ser filósofo para ser gramático? Isso exceto pelo fato de explicar Crísipo de preferência a Homero133. Portanto, quando alguém
me diz “Lê para mim Crísipo”134, eu enrubesço se não puder mostrar a ele as ações que correspondem e se harmonizam com as palavras de Crísipo.
50. Não importa quais sejam os princípios que a ti são oferecidos, obedece-os como se fossem leis, no pensamento de que seria para ti um ato de impiedade infringi-los. Não dá atenção ao que dizem sobre ti, pois isso não está sob teu controle.
51. Por quanto tempo irás adiar o fato de te considerares digno das melhores coisas135 e em nada violar o que é determinado pela razão?
Recebeste os princípios filosóficos que deves aceitar, e tu os aceitaste.
Assim, qual é o mestre que ainda aguardas a ponto de protelares o teu aprimoramento? Não és mais um adolescente, mas já um homem plenamente adulto. Se agora és negligente e despreocupado, e sempre faz suceder uma demora a outra demora136, e transferes de um dia para outro o cuidado de dares atenção a ti mesmo, sem perceber que não fazes nenhum progresso, o resultado é continuares a ser, na vida e na morte, um homem vulgar.
Portanto, digna-te desde já a viver como homem completo137 e que progride; e que tudo o que a ti se revela como o melhor seja para ti lei inviolável138. E se diante de ti se apresentar algo laborioso ou agradável, gerador de grande prestígio ou não gerador de nenhum prestígio, lembra-te que agora é o momento de ingressares na arena, que tens diante de ti os Jogos Olímpicos, que não podes adiar mais e que há um único dia e uma única coisa a decidirem a condenação do progresso ou a sua salvação.
Foi assim que Sócrates veio a ser Sócrates, isto é, concentrando sua atenção, diante de tudo aquilo com que topava, exclusivamente na razão.139 Mas se tu não és ainda um Sócrates, ao menos deves viver como uma pessoa que quer ser um Sócrates.
52. A primeira parte e a mais necessária na filosofia é o emprego de seus princípios, por exemplo: Não mintas140; a segunda são as demonstrações, por exemplo: Por que não se deve mentir? A terceira parte é aquela que consolida e esclarece, por exemplo: Por que é isso uma demonstração?
Afinal, o que é uma demonstração141, o que é uma consequência142, o que é uma contradição,143 o que é verdadeiro144, o que é falso145? Assim, a necessidade da terceira parte se impõe por causa da segunda; a da segunda, por causa da primeira; a mais necessária, porém, aquela sobre a qual devemos nos apoiar, é a primeira. O que fazemos, contudo, é o oposto; passamos o nosso tempo na terceira parte, e todo o nosso zelo é reservado a ela, ao passo que descuidamos completamente da primeira.
Daí efetivamente mentirmos, mas termos à mão o que demonstra que não devemos mentir.146 53. Em todas as ocasiões, que possamos ter à mão as seguintes máximas: “Conduz-me, ó Zeus, e tu, o Destino marcador, ao lugar onde dispusestes que eu fosse; eu vos seguirei sem tardar; mas se minha vontade fraquejar, tornando-se má, nem por isso deixarei de vos seguir.”147 “Aquele que acertadamente se associa à necessidade, é para nós um sábio e conhece as coisas divinas.”148
“Mas, Críton, se essa é a vontade dos deuses, que assim venha a ser.”149 “Anito e Meleto podem me matar, porém não me ferir.”150
EPICTETO: BREVES TRAÇOS BIOGRÁFICOS Epicteto de Hierápolis (c. 50-c. 120 d.C.) nasceu escravo na Frígia, e no decorrer de muitos anos viveu nessa condição subalterna e servil sob o talão de um senhor cruel. Mas o jovem Epicteto já então praticava pessoalmente algumas das virtudes que viriam a constar como itens obrigatórios de sua doutrina ética futura, nomeadamente resignação, tolerância, paciência e fortaleza, o que possibilitou a preservação de sua dignidade durante todos esses anos, suportando a rudeza de um senhor que chegava a ser sádico.
Ora, quem não conhece Os Miseráveis de Victor Hugo? Nesse romance imortal, assistimos o insensível e obstinado inspetor Javert finalmente capitular, ainda que mergulhado na perplexidade e no desespero, diante da bondade e compreensão do ex-presidiário Jean Valjean. De modo semelhante, o senhor e algoz de Epicteto, vencido pela constante e espontânea conduta amistosa e cordial daquele seu escravo coxo, num franco contraste com seu próprio comportamento, resolveu um dia libertá-lo. Foi nessa ocasião que Epicteto, em Roma, conheceu a filosofia estoica. Em 89 d.C., Domiciano (imperador de 81 d.C. a 96 d.C., e que compõe com Calígula, Nero e Cômodo o elenco dos quatro piores imperadores romanos) decretou a expulsão dos filósofos de Roma e do restante da Itália.
Epicteto, então, rumou para o Épiro, onde, em Nicópolis, sua serena eloquência associada ao exemplo de um gênero de vida simples e sóbrio (uma pobreza digna), atraiu para si um número imenso de discípulos, alguns deles jovens entusiastas. Epicteto não constituiu família nem deixou descendentes, e a data de sua morte, como a de seu nascimento, é imprecisa.
Sobre o autor
EPICTETO (c. 50-120 d.C.)
Epicteto de Hierápolis nasceu na Frígia, na condição de escravo, mas desde a juventude praticou algumas das virtudes que viriam a se tornar o fio condutor de sua ética filosófica, como a tolerância, a paciência e a fortaleza.
Depois de liberto, conheceu a filosofia estoica e veio a representar, com Sêneca e Marco Aurélio, a terceira fase do estoicismo. Seu estilo de vida simples e sóbrio atraiu um incontável número de discípulos. Dentre eles, Flávio Arriano, que viria a transcrever e compilar seus ensinamentos orais, posteriormente publicados como o Manual que temos em mãos. Epicteto não constituiu família nem deixou descendentes, mas legou à humanidade sua filosofia sobre a arte do bem viver.
Sobre o tradutor
Edson Bini
É um consagrado tradutor de filosofia. Traduziu para a Edipro as obras completas de Platão e tem se dedicado a traduzir, entre outras, as obras de Aristóteles. Estudou filosofia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Trabalhou com o jornalista e escritor Ignácio de Loyola Brandão. Realizou dezenas de traduções nas áreas da filosofia e do direito, e, há cerca de 20 anos, ocupa-se principalmente da tradução anotada, de cunho marcantemente didático e formativo.