Ciências Ocultas / O Hermetismo
Gnose
Assunto reunido a partir de 6 trechos de livros cadastrados.
Comparacao bibliografica
6 registrosCorpus Hermeticum Graecum
Corpus Hermeticum Graecum
CIÊNCIAS OCULTAS / O HERMETISMO / CORPUS HERMETICUM Graecum / Ensaios do Autor
Hermética como conhecimento do Sentido da Vida
Os eruditos tem diferenciado os termos gnosticismo e gnose: Gnose é propriamente um conhecimento dos mistérios divinos reservados para uma elite e o gnosticismo é um movimento religioso do século 2 antes de Cristo.
CIÊNCIAS OCULTAS / O HERMETISMO / CORPUS HERMETICUM Graecum / Libellus I - Poimandres de Hermes Trismegisto
O Autoconhecimento e o Caminho de Retorno
O texto resume esse estado com uma afirmação de grande importância: "Isso é o bom final aos que têm tido gnose: ter sido divinizado." ComentárioNo contexto do Corpus Hermeticum , a divinização ( theosis ) significa a plena realização da natureza espiritual do homem.
Fonte original colada
E quando se desnudar das obras da harmonia das esferas planetárias, vem estar na natureza ogdoática, tendo a própria potência, e canta com os seres hinos ao Pai. Mas ainda, os presentes se regozijam com a presença desse, e, tendo sido assemelhado aos companheiros, ouve também algumas potências cantando hinos com uma voz prazerosa acima na natureza ogdoática; e quando, em ordem, sobem para o Pai, eles se doam em potências, e, vindo a ser potências, vêm a estar em Deus.
Isso é o bom final aos que têm tido gnose: ter sido divinizado.
De resto, o que pretendes? Já que recebeste todas as coisas, não vens a ser guia aos dignos, a fim de que o gênero humano, através de ti, por Deus, seja salvo?
CIÊNCIAS OCULTAS / O HERMETISMO / CORPUS HERMETICUM Graecum / Libellus I - Poimandres de Hermes Trismegisto
O Hino de Louvor ao Pai
O texto demonstra que a gnose não conduz apenas ao entendimento intelectual, mas também à contemplação, ao reconhecimento da majestade divina e à gratidão.
Fonte original colada
Recebe os sacros sacrifícios racionais de alma e coração, dedicados a ti, ó Inexprimível, ó Inefável, tu que és chamado em silêncio.
Ao que se solicita que não sejamos destituídos da gnose referente à nossa essência; consente a mim e me investe de potência, e iluminarei os que estão na ignorância do gênero humano, meus irmãos, mais ainda teus filhos, através dessa graça.
Por isso, creio e testifico:
Libellus III — Discurso Sagrado de Hermes
A Manifestação do Cosmos e o Ciclo da Renovação
Segundo o tratado, os homens são engendrados para: a gnose das obras divinas; testemunhar a atividade da natureza; crescer e multiplicar-se; exercer domínio sobre o mundo inferior; conhecer o bem; compreender o céu; contemplar o movimento dos deuses celestes; conhecer as potências divinas; discernir o bem e o mal; desenvolver toda obra engenhosa voltada para o bem.
Fonte original colada
Com os deuses em si, também a circunferência foi enrolada pelo ar, sendo conduzida em curso cíclico pelo pneuma divino.
Porém cada deus levantou, pelas suas próprias potências, o que tem sido ordenado a ele; e vieram a existir feras quadrúpedes, répteis, aquáticos, voláteis, toda semente germinal, pasto e relva de toda flor. †Colheram em si mesmos† a semente da palingenesia, os engendramentos dos homens para a gnose das obras divinas, o testemunho ativo da natureza, o crescimento dos homens, o domínio de todas as coisas abaixo do céu e a cognição das coisas boas.
Tudo isso foi para o crescer em crescimento e o multiplicar em multidão; também toda alma em carne através do curso dos deuses cíclicos †e do semear portentos†; para o reconhecimento do céu e do curso dos deuses celestes, das obras divinas e da energia da natureza; não só para †sinais de coisas boas†, para a gnose de potências divinas †da parte que intima†, para conhecer das coisas boas e más, mas também para descobrir todo trabalho engenhoso de coisas boas.
Libellus IV — De Hermes a Tat: A Cratera ou a Mônada
A cratera da Gnose
A Cratera da Gnose e a Escolha entre o Mortal e o Divino
Neste tratado, Hermes apresenta uma das imagens mais profundas do Corpus Hermeticum: a cratera (κρατήρ), um vaso simbólico enviado por Deus para que os homens possam participar da gnose. O texto ensina que todos recebem a razão, mas somente aqueles que escolhem buscar o conhecimento tornam-se verdadeiramente completos.
A razão é concedida a todos; a gnose é um dom recebido por aqueles que escolhem buscá-la.
O Demiurgo e o corpo invisível de Deus
O tratado inicia descrevendo o Demiurgo, o Artífice do universo.
Hermes afirma que Deus não criou o mundo com mãos, mas pela Palavra.
Isso revela que a criação não é resultado de um trabalho físico, mas da ação da vontade e do Logos divino.
O texto convida o leitor a refletir sobre a natureza do próprio Deus.
Segundo Hermes, seu corpo:
não é tangível;
não é visível;
não possui medida;
não possui dimensão;
não se assemelha a nenhum corpo conhecido.
Também afirma que Deus não é:
fogo;
água;
ar;
pneuma.
Ao contrário, todas essas realidades procedem dele.
O homem como ornamento da criação
Hermes explica que Deus, sendo bom, não quis limitar sua obra apenas à criação do mundo.
Por isso enviou o homem.
O texto chama o homem de:
"o ornamento do corpo divino."
Essa expressão indica que o ser humano ocupa uma posição privilegiada dentro do cosmos.
Enquanto o mundo é o maior dos seres vivos materiais, o homem supera o próprio mundo por possuir:
razão ;
conhecimento .
Foi dado ao homem contemplar a criação, admirar sua beleza e reconhecer o Criador.Tabela – Mundo e Homem
Mundo
Homem
Vivente cósmico
Vivente racional
Sempre vivo
Mortal no corpo
Manifesta a ordem divina
Compreende essa ordem
Obra de Deus
Contemplador da obra
Razão e conhecimento
Hermes estabelece uma distinção fundamental.
Deus distribuiu a razão a todos os homens.
Entretanto, não distribuiu igualmente o conhecimento.
Tat pergunta:
"Por que Deus não repartiu o conhecimento entre todos?"
Hermes responde que isso foi feito intencionalmente.
O conhecimento foi colocado como um prêmio para as almas.
Razão (Logos racional)
Conhecimento (Gnose)
Todos recebem.
Deve ser buscado.
Permite pensar.
Permite despertar.
É natural ao homem.
É conquista espiritual.
A Cratera da Gnose
Para explicar essa diferença, Hermes apresenta uma das imagens mais conhecidas do Corpus Hermeticum.
Deus encheu uma grande cratera com o conhecimento.
Depois enviou um arauto para proclamar:
"Mergulha-te a ti mesmo nessa cratera, tu que podes."
A cratera representa um recipiente espiritual no qual a alma pode mergulhar para participar da sabedoria divina.
O chamado é dirigido apenas aos que:
desejam subir até Deus;
reconhecem sua origem;
procuram compreender por que vieram à existência.
Os que aceitaram o chamado
Hermes distingue dois grupos de pessoas.
Os primeiros atenderam ao chamado do arauto.
Eles:
mergulharam na cratera;
receberam a gnose;
tornaram-se homens perfeitos.
Já os demais recusaram esse convite.
O texto os descreve como pessoas que permanecem apenas na esfera da lógica e do raciocínio comum, sem alcançar o verdadeiro conhecimento de Deus.
A vida daqueles que permanecem na ignorância
Hermes descreve as consequências da ausência de conhecimento.
Esses homens:
vivem dominados pela ira;
seguem os desejos;
buscam apenas os prazeres corporais;
deixam de contemplar aquilo que realmente merece admiração.
O texto compara esse estado ao comportamento dos seres irracionais.
Os que receberam o dom de Deus
Em contraste, aqueles que participaram da gnose tornam-se verdadeiramente livres.
Segundo Hermes, eles:
vivem como imortais, mesmo habitando um corpo mortal;
contemplam todas as coisas;
conhecem a terra e o céu;
elevam-se acima do mundo sensível;
contemplam o Bem.
Depois de contemplar o Bem, passam a considerar a permanência exclusiva na existência material como um atraso em relação ao verdadeiro destino da alma.
A ciência do conhecimento
Hermes resume esse ensinamento afirmando:
"Isso é a ciência do conhecimento."
Essa ciência consiste em:
conhecer Deus;
conhecer as realidades divinas;
participar da própria sabedoria divina.
Por isso afirma que a cratera é divina.
Ela representa o ponto de encontro entre Deus e a alma humana.
O amor por si mesmo
Tat declara desejar mergulhar nessa cratera.
Hermes responde com uma afirmação surpreendente.
"Se primeiramente não odiares o teu corpo, não podes amar a ti mesmo."
Essa passagem frequentemente gera dúvidas.
No contexto do tratado, Hermes não ensina desprezo pelo corpo enquanto criação divina.
O contraste apresentado é entre:
viver exclusivamente para os desejos do corpo;
reconhecer a verdadeira identidade da alma.
Somente quando o homem deixa de identificar-se inteiramente com sua natureza corporal é que pode descobrir sua natureza espiritual.
A escolha entre o mortal e o divino
Hermes explica que existem dois modos de existência.
Caminho mortal
Caminho divino
Corpo
Incorpóreo
Prazeres
Conhecimento
Mortalidade
Divinização
Apego
Contemplação
Segundo o tratado, ambas as direções não podem ocupar simultaneamente o centro da vida.
Escolher uma significa deixar a outra em segundo plano.
Toda a vida espiritual consiste na escolha contínua entre aquilo que aproxima a alma do divino e aquilo que a prende exclusivamente ao mundo mortal.
A verdadeira piedade
Hermes conclui afirmando que escolher a realidade superior:
conduz à divinização;
manifesta a verdadeira piedade para com Deus.
Já escolher continuamente a realidade inferior conduz ao enfraquecimento espiritual.
Ele compara essas pessoas aos cortejos que atravancam uma multidão.
Assim como impedem outros de caminhar, também aqueles dominados apenas pelos prazeres corporais desviam-se do caminho e dificultam o progresso espiritual de si mesmos e, muitas vezes, dos outros.
O Caminho para o Uno
Nesta continuação, Hermes abandona a descrição da cratera da gnose e passa a explicar o caminho espiritual que conduz ao Uno, o princípio absoluto de toda a realidade. O texto enfatiza que Deus permanece eternamente bom e perfeito, enquanto os males surgem das escolhas humanas. Em seguida, introduz conceitos fundamentais da metafísica hermética, como a Mônada, o princípio de todos os números e de toda a existência.
O retorno ao Uno exige abandonar a identificação com o mundo transitório e contemplar a realidade primordial.
A origem do bem e do mal
Hermes afirma:
"As coisas que vêm de Deus existiram e existirão para nós; e as que vêm de nós atendam e não venham a faltar."
Logo em seguida, apresenta uma importante distinção.
Deus permanece:
perfeito;
inimputável;
incapaz de produzir o mal.
Os males surgem da própria humanidade.
Segundo o tratado:
"Nós somos causadores dos males, preferindo essas coisas às coisas boas."
A longa ascensão da alma
Hermes recorda a Tat que a ascensão espiritual não ocorre imediatamente.
A alma precisa atravessar:
inúmeros corpos;
os coros dos daimones;
os cursos das estrelas;
os diversos níveis da realidade cósmica.
Tudo isso antes de alcançar o Uno.
Essa descrição mostra que a jornada espiritual é apresentada como um retorno gradual à origem.
O Bem é infinito
Hermes descreve o Bem utilizando atributos absolutos.
O Bem é:
impenetrável ;
interminável ;
infindo ;
sem princípio em si mesmo.
Entretanto, embora Deus não possua princípio, a gnose possui um início para o homem.
Isso significa que Deus sempre existiu, mas o conhecimento de Deus começa quando a alma desperta.
Deus não possui começo; a gnose possui um começo apenas para quem inicia sua busca.O retorno às coisas primordiais
Hermes aconselha Tat a iniciar imediatamente essa caminhada.
Para isso será necessário abandonar o apego às coisas habituais e voltar-se para aquilo que é primordial.
Segundo o tratado:
as coisas visíveis agradam facilmente aos sentidos;
as coisas invisíveis despertam desconfiança;
o Bem permanece oculto aos olhos daqueles que vivem apenas para o mundo sensível.
Isso ocorre porque:
"O Bem não é forma nem tipo."
Ou seja, Deus não pode ser reduzido a nenhuma imagem ou objeto perceptível.
O semelhante e o dessemelhante
Hermes afirma:
"É impossível um incorpóreo ser manifestado no corpo."
Essa frase não significa que Deus esteja ausente do mundo.
Ela indica que a essência divina jamais pode ser completamente contida pelas formas materiais.
Existe sempre uma diferença entre:
Semelhante
Dessemelhante
Incorpóreo
Corpóreo
Eterno
Transitório
Divino
Material
Quanto maior a identificação com a matéria, maior o afastamento da contemplação da realidade incorpórea.
A Mônada
Hermes introduz então um dos conceitos centrais da filosofia hermética.
A Mônada.
Ela é descrita como:
princípio;
raiz;
origem de todas as coisas.
O tratado afirma:
"Não há nada sem princípio."
Mas acrescenta que a própria Mônada não deriva de outro princípio.
Ela procede de si mesma.
Tabela – A Mônada
Característica
Significado
Princípio
Origem de tudo.
Raiz
Fundamento de toda existência.
Unidade
Contém virtualmente toda a multiplicidade.
Não gerada
Não possui causa anterior.
Geradora
Dá origem a todas as demais manifestações.
A multiplicidade nasce da Unidade
Hermes continua utilizando a matemática como símbolo metafísico.
A Mônada:
contém todos os números;
não é contida por nenhum;
gera todos os números;
não é gerada por outro número.
Em seguida afirma que tudo aquilo que é gerado torna-se:
incompleto;
divisível;
sujeito ao crescimento;
sujeito ao declínio.
Somente a Unidade permanece plenamente íntegra.
A contemplação da imagem de Deus
Hermes encerra seu ensinamento dizendo a Tat:
"Essa imagem de Deus tem sido gravada para ti, segundo o possível."
Ele recomenda que essa imagem seja contemplada continuamente.
Não apenas com os olhos físicos.
Mas com:
"Os olhos do coração."
Segundo Hermes, essa contemplação possui uma força própria.
Ela atrai a alma para o alto.
Para ilustrar essa ideia, utiliza uma comparação bastante conhecida:
"Como a pedra magnética atrai o ferro."
Fonte original colada
A Cratera ou a Mônada
1Visto que o Demiurgo fez todo o mundo, não com as mãos, mas com uma palavra; sendo assim, compreenda como é o corpo daquele que é Presente, Sempre Existente, que fez todas as coisas, o Uno, e o que criou todos os seres por vontade sua; com efeito, isto é o corpo dele: não é tangível, nem visível, nem comensurável, nem dimensional, nem semelhante a qualquer outro corpo. Pois nem é fogo, nem água, nem ar, nem pneuma, mas todas as coisas vêm dele. Pois, sendo bom, <não> quis a si mesmo somente dedicar isso e ornar a terra, 2 e enviou o homem, o ornamento do corpo divino, o vivente mortal do vivente imortal; e, de fato, o mundo superou os viventes, sendo o sempre vivente, <porém, o homem> superou o mundo por causa da razão e do conhecimento. Pois o homem veio a ser espectador da obra de Deus, e admirou e conheceu aquele que tem feito as coisas. 3 Assim, ó Tat, Deus repartiu a razão entre todos os homens, mas não o conhecimento; não menosprezando alguns; pois o menosprezo não vem de lá, mas é constituído aqui embaixo pelas almas dos que não têm conhecimento. — Por que, então, ó pai, Deus não repartiu o conhecimento entre todos? — Quis, ó filho, colocar isso como prêmio no meio para as almas. 4 — E onde o colocou? — Tendo enchido uma grande cratera disso, enviou; designando um arauto, também lhe ordenou apregoar aos corações dos homens estas coisas: mergulha-te a ti mesmo nessa cratera, tu que podes, tu que crês que subirás para o que tem enviado o vaso de mistura, tu que conheces por que vieste a serAssim, aqueles que ouviram a pregação e embeberam-se de conhecimento, esses participaram da gnose e, tendo recebido o conhecimento, vieram a ser homens perfeitos; mas aqueles que se desviaram da pregação, esses são os lógicos, que não tomaram em acréscimo o conhecimento, que desconhecem por que e por quem vieram a existir; 5 mas as sensações desses são semelhantes às dos viventes irracionais: irascivelmente e cupidamente possuindo o temperamento, não admirando as coisas dignas de contemplação, mas obedecendo aos prazeres e aos deleites dos corpos, e acreditando que o homem vem a existir por causa dessas coisas. Aqueles que, porém, participaram do dom de Deus, esses, ó Tat, em comparação às obras, são imortais em vez de mortais, tendo incluído no seu próprio conhecimento todas as coisas, as coisas da terra, as coisas do céu, e se algo existir acima do céu; porém, tendo elevado a si mesmos de tal modo, viram o Bem, e tendo visto, consideraram uma infelicidade o atraso aqui; tendo desdenhado de todas as coisas corpóreas e incorpóreas, também se dedicam ao Uno. 6 Isso, ó Tat, é a ciência do conhecimento: †abundância† das coisas divinas, e é o aprendizado sobre Deus, já que divina é a cratera.
— Também eu quero ser imerso, ó pai. — Se primeiramente não odiares o teu corpo, ó filho, não podes amar a ti mesmo; tendo, porém, amado a ti mesmo, terás conhecimento, e tendo conhecimento, também participarás da ciência. — O que queres dizer com essas coisas, ó pai ? — Pois é impossível, ó filho, vir a ser de ambas as coisas, das mortais e das divinas. Pois são duas coisas de dois seres distintos, as do corpo e do incorpóreo, nos quais estão o mortal e o divino; a escolha de uma abandona a outra que quer ser eleita, e, com efeito, não é eleita; †são as duas coisas simultâneas, mas ainda, entre si, a escolha, deveras, abandona uma delas†: uma fraca mostra a força enérgica da outra.
7Assim, portanto, a escolha da melhor não só vem a ser a mais bela energia para a eleita <com o intuito de> divinizar o homem, mas também mostra a piedade para com Deus. E a escolha da coisa mais fraca arruína o homem. Mas nenhuma coisa ofendeu a Deus, com exceção somente disto: Como os cortejos caminham no meio da multidão, não podendo efetuar alguma coisa, mas impedem os outros de caminharem; do mesmo modo, também, esses homens somente vagam no mundo, sendo desviados pelos prazeres corporais. 8 Porém sendo essas coisas assim, ó Tat, deveras, as coisas que vêm de Deus existiram e existirão para nós; e as que vêm de nós atendam e não venham a faltar. Como Deus é, de fato, inimputável, nós somos causadores dos males, preferindo essas coisas às coisas boas. Vês, ó filho, quantos corpos nos são necessários atravessar, quantos coros de daimones e continuidade e os cursos das estrelas para chegarmos com pressa ao Uno? Pois o Bem é Impenetrável, tanto interminável quanto infindo, e semprincípio em si, mas nos faz lembrar que a gnose tem princípio. 9 Portanto, a gnose não vem a ser princípio dele, mas para nós, isso oferece o princípio do que virá a ser conhecido. Recebamos, portanto, do princípio, e também percorramos rapidamente todas as coisas; pois, sim, é tortuoso, tendo deixado as coisas habituais e as presentes retornar às coisas antigas e primordiais. Pois tanto as coisas manifestas deleitam como as imanifestas fazem desconfiar. Todavia mais manifestas são as coisas más, mas o Bem é imanifesto aos manifestos. Pois não é forma nem tipo. Por isso, deveras, é semelhante a si mesmo, mas é dessemelhante a todos os outros. Com efeito, é impossível um incorpóreo ser manifestado no corpo; 10 essa é a diferença do semelhante para o não semelhante, há uma falta ao dessemelhante diante do semelhante. Pois a mônada, sendo princípio e raiz, está em todas as coisas como raiz e princípio. E não há nada sem princípio, e o princípio não vem de nada, mas de si mesmo, se ao menos o princípio for dos diferentes. A mônada sendo princípio, portanto, inclui todo número, não sendo incluída por nada, e gerando todo número, não sendo gerada por nenhum outro número. 11 Porém todo gerado é inacabado e divisível, aumentativo e diminutivo, e, no fim, nenhum desses vem a ser. E, de fato, o aumentativo é aumentado pela mônada, porém apreendido por sua própria fraqueza, já não podendo conter a mônada.
Portanto, ó Tat, essa imagem de Deus tem sido gravada para ti, segundo o possível: a qual certamente, se contemplares e meditares aos olhos do coração, creia em mim, filho, encontrarás o caminho para as coisas de cima. E, principalmente, a imagem mesmo te conduzirá. Pois a contemplação tem algo próprio; ela prende e atrai os que estão diante dela, para contemplá-la, como dizem que a pedra magnética atrai o ferro.
LIBELLUS VII
Que o maior mal entre os homens é o desconhecimento sobre Deus
A Ignorância como o Maior Mal
Neste trecho, Hermes muda o tom do discurso. Depois de explicar a natureza de Deus, do Bem e da criação, ele dirige-se diretamente à humanidade como um mestre que desperta discípulos adormecidos.
A mensagem central é clara:
O maior mal não é a pobreza, a dor ou a morte, mas o desconhecimento de Deus.
A embriaguez da ignorância
Hermes utiliza uma das metáforas mais fortes de todo o Corpus Hermeticum.
"Estais embriagados pela doutrina da ignorância."
A ignorância é comparada a uma bebida intoxicante.
Ela:
embriaga a consciência;
tira o discernimento;
faz o homem perder a direção;
impede que veja a realidade.
Por isso ele ordena:
"Levantai! Tornai-vos sóbrios!"
Não se trata de uma sobriedade física, mas espiritual.
Olhar com o coração
Hermes diz:
"Olhai com os olhos do coração."
Esse é um dos conceitos centrais do hermetismo.
Deus não é percebido pelos sentidos físicos.
Ele é conhecido por meio do:
Nous (Intelecto divino);
coração espiritual;
consciência purificada.
Enquanto os olhos enxergam formas, o coração iluminado percebe princípios.O porto da salvação
Outra imagem profundamente simbólica.
O mundo é apresentado como um mar agitado.
Os homens são comparados a embarcações sendo levadas pelas ondas.
O objetivo da vida espiritual é encontrar:
o porto da salvação.
Esse porto representa:
estabilidade;
segurança espiritual;
retorno à origem divina;
libertação da ignorância.
O guia da gnose
Hermes aconselha:
"Procurai um guia."
No contexto hermético, esse guia pode representar:
Símbolo
Significado
Mestre iniciado
transmite a tradição
Nous
guia interior enviado por Deus
Logos
conduz à Verdade
Gnose
o próprio caminho de retorno
A verdadeira iniciação nunca acontece apenas pela leitura.
Ela exige direção interior.
A luz resplandecente e a pura escuridão
Um dos trechos mais profundos do texto.
Hermes descreve o lugar da gnose como:
luz resplandecente ;
pura escuridão .
À primeira vista parece contraditório.
Mas não é.
A "escuridão" não significa ausência de Deus.
Ela representa aquilo que está além da compreensão sensorial.
Assim como uma luz infinitamente intensa pode parecer escuridão aos olhos limitados, Deus transcende toda percepção comum.
É um tema recorrente também na tradição mística neoplatônica.Como Deus pode ser conhecido
Hermes afirma:
Deus não é conhecido por:
visão física;
audição;
linguagem;
raciocínio comum.
Mas sim por:
Nous ;
coração purificado.
Essa ideia aparece diversas vezes ao longo do Corpus Hermeticum.
O conhecimento de Deus não é uma informação.
É uma transformação da consciência.A Túnica da Ignorância
Hermes então apresenta uma das imagens mais famosas do hermetismo.
Antes de conhecer Deus é necessário retirar uma veste.
Essa veste é chamada de:
a túnica da ignorância.
Não é uma roupa física.
É tudo aquilo que cobre a natureza divina do homem.
Os nomes da túnica
Hermes descreve essa veste por meio de vários símbolos.
Símbolo
Significado
Tecido da ignorância
desconhecimento da realidade divina
Suporte da maldade
base onde os vícios se sustentam
Laço da corrupção
prisão da alma à matéria
Véu obscuro
impede enxergar a Verdade
Morte vivente
viver espiritualmente morto enquanto o corpo vive
Defunto sensível
homem dominado apenas pelos sentidos
Sepultura errante
o corpo como túmulo da alma inconsciente
Habitante ladrão
os desejos roubam a liberdade da alma
Percebe-se que Hermes não condena o corpo em si, mas o estado de inconsciência em que o homem vive identificado apenas com ele.
O paradoxo do apego
Uma frase extremamente profunda aparece nesse trecho.
A túnica:
"odeia pelas coisas que ama e inveja pelas coisas que odeia."
Hermes mostra que as paixões humanas são contraditórias.
O homem:
apega-se ao que o escraviza;
teme perder aquilo que o faz sofrer;
deseja o que depois o destrói.
Esse é o ciclo da ignorância.
Os sentidos aprisionados
Segundo Hermes, a ignorância bloqueia completamente os instrumentos da alma.
Ela:
impede ouvir a Verdade;
impede ver a Realidade;
obscurece o intelecto;
fortalece os desejos materiais.
Os sentidos continuam funcionando biologicamente.
Mas deixam de cumprir sua finalidade espiritual.
Conceitos-chave
Conceito
Significado no texto
Ignorância
O verdadeiro mal da humanidade.
Embriaguez
Estado de inconsciência espiritual.
Sobriedade
Despertar da consciência.
Olhos do coração
Percepção espiritual através do Nous.
Porto da salvação
Retorno seguro ao conhecimento divino.
Guia
Mestre, Logos ou Nous que conduz à gnose.
Túnica da ignorância
Conjunto de ilusões, paixões e identificação com a matéria que ocultam a natureza divina do homem.
Fonte original colada
Que o maior mal entre os homens é o desconhecimento sobre Deus.
1Para onde levais, ó homens, a vigorosa doutrina da ignorância, sendo embriagados e tendo bebido dela, a qual não podeis suportar, mas já também a vomitais? Tendo ficado sóbrios, levantai! Olhai com os olhos do coração! E se vós todos não podeis, pelo menos, deveras, os que podem; pois a maldade da ignorância transborda toda a terra e corrompe a alma trancada no corpo, não permitindo ancorar nos portos da salvação. 2 Portanto, não sejais arrastados pela grande onda, mas sede vós possuídos pela força! Vós que podeis vos apoderar do porto da salvação, tendo sido ancorado nele, procurai um guia que vos conduzirá para a porta da gnose, onde está a luz resplandecente, a pura escuridão, onde ninguém se embriaga, mas todos são sóbrios, dirigindo o olhar pelo coração para aquele que quer ser visto; pois não é audível, nem verbal, nem visível aos olhos, mas pelo nous e pelo coração. Pois é necessário primeiramente tu despojares a túnica que vestes, o tecido da ignorância, o suporte da maldade, o laço da corrupção, o véu obscuro, a morte vivente, o defunto sensível, a sepultura errante, o habitante ladrão, o que odeia pelas coisas que ama e inveja pelas coisas que odeia. 3 Tal é a túnica detestável que vestiste, estrangulando-te embaixo sobre ela, a fim de que, não vendo e contemplando a beleza da verdade e o Bem existente, não odeies a maldade dessa; não tendo refletido a imposição dessa que se impôs em ti, fazendo insensíveis os que são tidos por órgãos dos sentidos, e não sendo considerados. Tendo obstruído pela grande matéria e enchido de execrável desejo os órgãos dos sentidos, para que nem ouças sobre as coisas que são necessárias ouvires, nem vejas sobre as coisas que são necessárias que vejas.
